Na foto: à esquerda, padre Valnei Pedro, comboniano na China e, à direita, com padre Ismael, quase 50 anos de Brasil, poucos dias atrás em São Paulo.
Um comboniano, missionário na China
De passagem por São Paulo/SP, durante um curto período de férias, o comboniano padre Valnei Pedro Reghelin, nascido numa família de 13 filhos, em Horizontina/RS, que há cerca 14 anos trabalha em Macau (China), deixou esta entrevista ao jornal “Missão Sem Fronteiras” (MSF) e a este nosso site.
MSF - A sua missão na China abrange uma área grande?
- Sim! Estou em Macau, um território situado no Sul da China, a mais ou menos 60 km de Hong Kong. Foi colônia portuguesa até 10 anos atrás. A população é 98% chinesa. Macau é uma península pequena, com uma população de cerca de 600 mil pessoas, uma das áreas de maior concentração demográfica por m2 do mundo.
MSF - Tendo sido no passado, colônia portuguesa, para você brasileiro, é fácil comunicar com o povo?
- Macau foi colônia por muitos anos, mesmo assim, são poucos os locais que falam a língua portuguesa; a maioria da população fala um dos dialetos Chineses, chamado Cantones.
MSF - Qual é o tipo de indústria em Macau?
- A economia é baseada na indústria do turismo, sendo um local onde o jogo é liberado, e, praticamente, tudo gira em torno dos Cassinos da cidade, considerada uma “Las Vegas da Ásia”. No ano de 2009 passou Las Vegas dos EUA na renda dos Cassinos.
MSF - A Igreja Católica está presente no território?
- Sim! A Igreja chegou há muitos anos atrás. Macau foi uma das portas de entrada de muitos missionários que vinham para a China. Mateus Ricci (1583-1610) esteve em Macau, onde começou aprender chinês e depois entrou na China, até Pequim, para a missão. Depois dele, chegaram outros missionários, como Mateus Ripa, de Éboli, do sul da Itália, (1710-1734), que foi fundador do Colégio dos Chineses em Nápoles (Itália). Apesar de uma longa presença do cristianismo em Macau, a igreja católica ainda é minoria: menos de 2% da população. Existem também outras religiões cristãs no território, bem como Budismo e Taoísmo.
MSF – Como é vosso o trabalho missionário em Macau?
- Nossa presença comboniana é pequena, mas significativa. Estamos caminhando junto com a diocese, que tem apenas sete paróquias no território, um pequeno grupo de padres locais, diocesanos, a maioria idosa. Nosso trabalho em Macau está concentrado na atividade pastoral em duas paróquias, com ênfase no trabalho de primeira evangelização.
MSF – É difícil essa primeira evangelização?
- Sim! Comporta muitas coisas: o contato, convivência, testemunho e caminhada com aqueles que querem conhecer a mensagem de Cristo e sua igreja. Com estas pessoas se desenvolve a caminhada catequética, chamada Catecumenato. A maioria dos que participa é composta de jovens/adultos, universitários ou jovens profissionais. A catequese tem uma duração de dois anos ou mais; durante esse tempo as pessoas têm a oportunidade de conhecer a mensagem de Jesus, estudo dos evangelhos e também conhecer o que é a igreja e sua missão. Depois, a cada um é dada a liberdade para entrar na comunidade cristã. Os batizados são realizados na vigília Pascal de cada ano, momento forte na caminhada destas pessoas e também da comunidade crista que acolhe os novos membros.
MSF - Como estas pessoas chegam a buscar a igreja?
- A China passa por um desenvolvimento econômico muito grande; as pessoas mudam de vida e também de condições financeiras e muitas coisas novas e atraentes fascinam o chineses. No meio de tudo isto muitos se dão conta de que falta algo, de que existe um vazio espiritual grande.
MSF – Os cristãos, na China, dão bom exemplo?
- Como em toda parte, a maioria, sim! Muitas pessoas são atraídas para a fé católica pelo testemunho de outros católicos, pelas obras sociais da igreja, pelas escolas católicas. São pessoas que buscam algo mais para vida, e que encontram no cristianismo este sentido para a vida.
MSF – Você trabalha apenas na paróquia?
- Não! Além do trabalho pastoral na paróquia, também participo da comissão de animação vocacional da diocese, na pastoral carcerária e agora com um grupo da pastoral dos Surdos. Em dezembro passado presidi pela primeira vez a missa em sinais.
MSF – Tem muitos combonianos em Macau?
- Não! No momento somos 6 em duas comunidades. Uma comunidade formada por 1 brasileiro, 1 mexicano e 1 da Costa Rica, a outra comunidade por 1 português, 1 peruano e 1 recém chegado do Togo/África. Alem da presença missionária na diocese de Macau, dois dos confrades coordenam o projeto Feng Xiang, com atividades dentro do território chinês. Vivem em Macau, mas frequentemente viajam para diferentes partes da China para coordenar projetos na área de formação de seminaristas e irmãs, e projetos sociais com órfãos e crianças com AIDS.
MSF – Pode fazer uma rápida panorâmica da Igreja na China?
- Na China, a situação é muito complexa. A presença da igreja na China foi sempre de conflitos históricos: aceitação e rejeição por parte dos imperadores, cultura, língua etc. A situação atual ainda é complicada e complexa. Na realidade existem duas igrejas católicas na China: a Católica Patriótica e a igreja clandestina. Segundo o governo chinês, existe liberdade para a pratica da religião, seja qual for. Na realidade é diferente, pois o governo só permite a presença e ação da igreja, seja católica, evangélica etc., se for controlada pelo governo.
MSF – Quer dizer que é o governo que coordena a ação da igreja?
– Sim! Inclusive a eleição dos bispos e o controle do culto, que pode ser realizado somente em igrejas aprovadas e controladas pelo mesmo. A igreja patriótica não pode reconhecer o Papa como pastor da Igreja, sendo que nada pode ser mais alto que o Partido do governo. Muitos não aceitam esta igreja, e se reúnem às escondidas, formando a igreja clandestina.
MSF – São muitos os membros que pertencem a essa igreja?
- Não se tem números, mas se afirma que a igreja clandestina é muito maior que a patriótica. Existem divisões também entre as duas igrejas, os da clandestina afirmando que são os verdadeiros católicos, fieis e ligados ao Papa. O governo chinês não tem relações diplomáticas com o Vaticano. Existem comissões de dialogo, mas não se vê a curto prazo uma solução para o problema atual.
MSF – Existe restrição ao vosso trabalho missionário?
- Temos liberdade para realizar nosso trabalho missionário nos territórios de Hong Kong, Macau e Taiwan. Dentro da China ainda não é permitido aos missionários estrangeiros desenvolver um trabalho e uma aberta presença missionária. Como todas as outras congregações missionárias, temos a presença em Macau e Taiwan, com a esperança de que o governo chinês abra as fronteiras para a liberdade de presença e ação da igreja missionária. Muitos estão desenvolvendo atividades dentro da China, mas de uma forma de que não afete a presente situação e sem poder ter uma presença a longo prazo. São permitidos outros trabalhos em escolas e universidades, como professores, mas sem a liberdade para envolver-se em qualquer atividade religiosa.
MSF – Há brasileiros morando na China?
- Sim! Existe uma comunidade de brasileiros no território. Muitos vêm buscar melhores condições de vida e de trabalho. Em Macau, há vários que são pilotos de avião, outros trabalham em vários setores, inclusive nos cassinos. Dentro da China existe uma cidade onde há mais de 2 mil brasileiros trabalhando. São praticamente todos vindos do Rio Grande do Sul; trabalham na China nas fabricas de calçado.
MSF – Vossa atividade religiosa se estende também aos brasileiros que residem na China?
- Sim! Eu conheci um casal brasileiro desta cidade que pediu para ir fazer uma visita, pois onde ele está não há igreja e estava praticamente isolado de tudo. Comecei a visitar e organizamos uma celebração, em um apartamento, com umas 25 pessoas. Sendo que não é permitido este tipo de atividade lá dentro, fizemos como às escondidas, só com os brasileiros e sem com que fora soubessem de tal celebração. Agora temos um grupo estável e eles se organizaram para iniciar a catequese para as crianças.
MSF - O que acontece se o governo descobre este tipo de atividade?
- Por questões diplomáticas e para não perder a “cara”, o governo oficialmente não expulsa um missionário pego fazendo atividades irregulares. O que acontece é que na próxima vez que alguém for pedir o visto de entrada, sempre visto de turista, este visto pode ser negado, não podendo mais entrar no país. Muitos já passaram por isto, portanto, todas as atividades sempre são realizadas com precaução e cientes do risco que se corre. Um missionário foi dar um retiro a Irmãs em uma área mais controlada pelo governo, do aeroporto; alguém foi espera-lo de carro, depois de andarem uma hora, em estradas secundárias, foram a uma casa, e la trocaram de carro para chegarem ao destino. Mesmo assim, 4 dias depois a polícia foi atrás dele, verificando documentos e fazendo interrogatórios. Em alguns lugares os oficiais não aplicam a lei ao pé da letra, mas em outros, todos os movimentos e contatos com pessoas locais são controlados.
MSF - Vale a pena o trabalho missionário em um contexto como este?
- Sempre que me perguntam isto, digo com toda a sinceridade que SIM. Mais do que nunca a mensagem de Cristo é urgente para o povo chinês, e não só, mas para o povo do continente Asiático. Os desafios são muitos, mas, ao mesmo tempo, as motivações para a nossa presença são mais fortes. Vive-se uma missão de “fronteira”, por não termos a liberdade de ir e vir; vivemos a missão de “esperança”, pois, junto com um povo que sofre, esperamos e confiamos na mudança do sistema de governo; vivemos uma missão de “presença”, pois partilhamos muitas vezes mais do que com palavras, a presença solidária do amor e a presença de Deus.
MSF – Você ainda se sente estrangeiro na China?
- Não! Neste ano completo 14 anos de presença nas missões na China. Depois de tanto tempo, me sinto em casa e parte da missão e da vida do povo. Os desafios continuam, mas, mesmo assim, vale a pena a missão junto ao povo chinês. Uma vez, alguém me perguntou: como vai a “experiência” lá na China. Respondi: sou missionário, e fui enviado para a missão não para “experimentar”, mas para “viver” a missão. Não se pode experimentar, tem que se entregar totalmente, viver a missão é aprender a conviver e a amar o povo onde a gente é chamada. Posso dizer que, durante estes anos, estou tentando o melhor de mim para isto. Amar o povo com que se vive é entregar-se totalmente, é partilhar de todos os momentos, é estar disposto a estar presente. Sempre serei “brasileiro”, pois levo comigo aquilo de riqueza que minha cultura tem, a partilha do que sou, mas, estando na China, torno-me presença com o povo chinês e partilho disto com eles.
MSF – Você é uma pessoa feliz?
- Sim, muito feliz! Outra dimensão da missão é viver com generosidade e alegria. O pior tipo de missionário é aquele que é “azedo”, que não é capaz de tornar-se povo, de ser feliz com o povo, de partilhar com o povo.
MSF – Pode deixar uma mensagem para os jovens?
- Sim! Gostaria de dizer aos jovens: no mundo de hoje, na realidade em que vivemos, vale a pena ser missionário! Se algo te inquieta dentro de ti, não esconda, não abafe, pois quem sabe? Você um dia poderá estar partilhando e vivendo a missão também de uma forma mais comprometida. Os desafios são muitos, mas as alegrias na missão são maiores ainda!
Para contato: Pe. Valnei Pedro Reghelin, mccj Igreja Sao Francisco Xavier Rua Francisco Xavier Pereira, 118 MACAU – CHINA vpedrobrazil@yahoo.com