O Naufrágio da Humanidade
Enxergamos um submarinho a 4 mil metros de profundidade, mas não vemos os barcões carregados de prófugos que navegam na superfície do mar. Mobilizamos batalhões de pessoas e tudo aquilo que há de mais moderno para procurar os “turistas” milionários que desceram no abismo do oceano para visitar a carcaça do Titanic, mas não respondemos aos apelos de milhares de seres humanos empobrecidos/as que afogam nas águas do Mediterrâneo enquanto fogem da pobreza, patrocinada pela injustiça, da perseguição promovida pela intolerância e da guerra patrocinada pela ganância dos mercantes de morte. Dedicamos horas de noticiários televisivos e radiofônicos e páginas de jornais para narrar passo a passo a busca dos náufragos da opulência e liquidamos em poucas linhas e num punhado de segundos a tragédia dos náufragos da miséria. Contamos com detalhes os nomes e as biografias dos ricos que arriscam a pele pelo prazer de ver o casco de um navio afundado e tratamos como anônimos os pobres obrigados a por em risco a vida para ver a esperança de um futuro melhor “Todas as vidas importam!”, deveria ser a palavra de ordem de uma sociedade que se diz humana. Inclusive quem sofre importa ainda mais aos olhos de Deus e de quem ao cultua. Mas não é isso que acontece. A cor da pele, a condição econômica, o acesso ao poder, o prestígio, o nível de escolaridade, a proveniência geográfica e outros fatores, infelizmente, sacramentam a diferença entre enriquecidos e empobrecidos, brancos e pretos, homens e mulheres, jovens e velhos, “normais” e ‘com deficiência”… É o retrato do abismo que Jesus denunciou na parábola do risco esbanjador e do pobre Lázaro. À distância de 2 mil anos de Evangelho continuamos na mesma, Nada fizemos para acabar com ele. Como o rico e o esbanjador da narrativa de Jesus, também os ricos do submarinho e os pobres dos barcões constituem a profecia do naufrágio da humanidade. Os primeiros nos lembram a vergonha da riqueza esbanjada para satisfazer veleidades, e os segundos jogam na nossa cara a denúncia do fracasso deste sistema econômico e social que, ao eleger como paradigma dominante a violenta usurpação dos bens que devem estar a disposição de todos/as, provocam miséria, guerra e emigrações forçadas. Não desprezo a dor das famílias que perderam seus entes queridos no naufrágio do submarinho, mas faço questão de lembrar a tragédia de muitos outros que morrem no mar sem direito sequer a um salva-vidas. Espero que aprendamos a lição do mar que, mesmo de maneira diferente, nos ensina que quando não tem solidariedade não se sobrevive.
(pe. Xavier Paolillo, missionário comboniano)